A seca do Nordeste

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A seca do Nordeste segundo a narrativa de um aventureiro

 

Já estive nas caatingas de Sergipe e Alagoas e pude ter uma noção de como a vida é difícil no sertão nordestino. E olha que nem era uma época de tanta seca assim. No entanto, ainda pude ver cenas de gado em pele e osso e animais sem força  para continuar em pé. Muitas ossadas e urubus banqueteando carcaças. Como trabalhador de topografia, tive acesso à áreas rochosas e muito inóspitas, onde poucos se aventuram adentrar.

Na localidade de Porto da Folha, SE, estivemos numa fazenda de nome “Lagoa da Roça” onde faltou pouco para eu perder a vida. Descemos para um vale rochoso, uma espécie de fenda no meio da fazenda, onde até mesmo os guias locais, pertencentes a um acampamento sem-terra, acostumados a andarem em terrenos íngrimes, encontraram dificuldade para a descida. Muitas vezes tínhamos que segurarmos em cactos espinhentos para não despencarmos precipício abaixo. Quando não pude evitar a queda, uma erva caatingueira foi o que me salvou de me espatifar nas rochas pontiagudas lá em baixo. Mesmo ferido pelo esfolamento de alguns segundos escorregando até conseguir agarrar o arbusto, não havia outra alternativa a não ser continuar com o objetivo de medirmos aquelas terras. Naquele lugar estranho, me senti como se estivesse caminhando numa espécie de vale perdido em meio ao  inferno de um sol escaldante . seca-nordeste

Terreno rochoso, indicando um riacho completamente seco. Insetos estranhos, um mini lagarto vermelho incandescente apareceu como num flash e sumiu dentre os gravetos rente à uma árvore morta. Muitas fezes de Mocó, um roedor que habita as rochas e que serve de alimento para o povo da região.

Neste local pude sentir o sol abrasador do meio dia, onde não tínhamos uma árvore de sombra sequer e nem mais água suficiente para beber. Estava, além de sedento, ferido, sangrando na barriga, lavado de suor, fraco, exausto e passando mal. Como voltar?

Desmaiei em determinado ponto da subida. O joelho esquerdo, limitado por um antigo acidente de moto estava pesando mil quilos. Não havia sombra, a sensação térmica deve ter passado longe dos 40º. Os guias ainda quiseram exibir uma seriema que mataram, mas eles nem sabiam o quanto eu era contra a caça daquelas pobres aves, que vêm cada vez mais se tornando raras nessas regiões e que mal oferecem carne em seus corpos pequenos. Apenas pescoço, asas e pernas são grandes, mas o corpo, depois de depenado fica pouco maior do que uma codorna.

Talvez alguém argumente, assim como eles mesmos argumentaram: “Precisamos comer carne”. A grande maioria dos “sem-terra” (cito aqueles que vivem próximo às cidades e rios) presente nos acampamentos nordestinos dispõe de criação de galinhas e outros animais. Não possuir dinheiro pra comprar carne, mas ter dinheiro pra comprar munição pra suas armas, acho um tanto estranho. Além disso, possuem motocicletas e outros bens que não cabe aqui citar.seca nordeste

Já não é o caso das pessoas que estão realmente isoladas pela seca, morando no meio do nada e sobrevivendo à base de algum arroz, às vezes um caldo de feijão, farinha e carne de calango ou rato rabudo para se obter alguma proteína. Tais caçadores, sim, têm válidos argumentos para a caça. No caso dos “sem-terra”, que o Governo assentou para que, mediante ignorãncia + ganãncia, devastassem a já sofrida caatinga, as caças predatórias são incessantes, até mesmo em áreas “pertencentes” ao IBAMA. Queimadas e demais crimes absurdos contra a natureza são cometidos impunemente sob o pretexto de “falta de carne no prato”…mas criam até porcos (?).

Um outro grande erro é a insistência e resistência que perdura nas gerações de criadores de gado em locais tão inóspitos. O boi não se adaptou ao clima e hostilidades do sertão do norte e nordeste brasileiro. O único animal de criação para produção de carne e leite na região seria mesmo o bode, melhor adaptado a tantas adversidades do clima e escassez de vegetação.

chuva na caatinga

Por um momento, posso transmitir o efeito desta imagem a todas as pessoas que sobrevivem em meio a tanto sofrimento…a tão sonhada chuva!

A incompetência muitas vezes proposital do Governo brasileiro, bem como àqueles que se aproveitam disso, mantém aquilo que conhecemos hoje como a “Indústria da seca”. Gente corrupta, sem escrúpulos, sem caráter, se infiltra na política para explorar a ignorância daquela gente humilde e sofrida. Oferecem a água da qual as pessoas teriam direito como se fosse uma dádiva que eles dão em troca de votos e outros benefícios. Até mesmo o “poderoso” Ratinho sentiu o poder dessa verdadeira máfia quando quis perfurar poços artesianos nos locais mais atingidos pela falta d’água. Foi uma iniciativa que ele lançou ha muitos anos em seu programa de TV, mas teve que parar, pois estavam fechando todos os poços abertos por ele. O caso não teve a repercussão devida e ninguém mais tocou no assunto, infelizmente.

Quanto ao fim da minha aventura naquele Vale do inferno, conseguimos, enfim, chegar à sede da fazenda, após uma penosa subida. Nunca bebi água com tanta sofreguidão como nesse dia. Água de cor amarela com toda a sorte de impurezas descia como se fosse Coca-Cola gelada no deserto. Depois, ainda fui levar os guias em suas casas, descendo a ladeira, desta vez, pela estrada de terra, nos arredores da fazenda e, claro, com o carro da empresa. Como recompensa, nos deparamos, eu e meu companheiro de trabalho, Edmundo, com o maravilhoso rio São Francisco….foi como sair do inferno direto para o paraíso…..me joguei nas águas tranquilas e cristalinas com roupa e tudo…era o nirvana!!!! Pra completar, bem `a beira do rio, uma casa com varanda onde nos serviram a cerveja mais gelada e gostosa que já tomei na vida!!!! 🙂

fan page da seca

fan page da seca

lagartim

Mias ou menos o que seria o lagarto cor de fogo visto no “Vale do Inferno”

Imagens das minhas aventuras no sertão de Sergipe e Alagoas:


Em breve, mais fotos….

 

 Abaixo, a homenagem de meu amigo, Tony Sanches e sua banda, a Forroxote, aos que sofrem com o flagelo da seca no nordeste.

 

 

forroxote

Capa do novo cd da Forroxote

A seca no Nordeste – Banda Forroxote

Em apoio ao povo do sertão que está sofrendo muito por causa da seca que assola a sua vida e tudo que ele construiu,  lança a música com o clip:“Seca do sem fim” e pede a todos que comentem e compartilhem também o vídeo no facebook, no twiteer e, se puder, em toda rede social.

“Assim, você irá contribuir muito e mostrará que nós da Forroxote não estamos sozinhos nessa luta.

Temos que tentar sensibilizar àqueles que dizem que nos governa e tudo isso não é só por nossos irmãos sertanejos não! É também por nós todos seres humanos.

Agradecemos a todos..”

(Tony Sanches)

FORROXOTE – contatos:(71)8881-9561/9962-1141/9206-41­12/8102-5491 Sites: palcomp3.com/forroxote e

www.forroxote.com

E-mail: [email protected]

 

Confira no vídeo e comente!  

(APÓS ASSISTIR O VÍDEO E, SE FOR A FAVOR DO TEMA ABORDADO, PEÇO QUE CLICK EM GOSTEI )

 


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Filmado durante a jornada no “Vale do Inferno”

Faz. Lagoa da Roça, Porto da Folha-SE

Neca, um sem-terra cantor e uma de suas composições

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